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março 6, 2021
Agricultura

Manejo da leprose nos dias atuais

A leprose dos citros é uma das doenças mais graves da citricultura brasileira, pois causa queda intensa de frutos, desfolha e seca de ramos, reduzindo drasticamente a produtividade e a vida útil dos pomares. É uma doença causada pelo vírus Citrus leprosis virus (CiLV-C), transmitido pelo ácaro Brevipalpus yothersi. Todas as variedades de laranja doce (Citrus sinensis) são suscetíveis aos vírus da leprose. O controle da doença é realizado principalmente com aplicações de acaricidas à alto volume de calda, o que resulta em um dos maiores custos da citricultura, ultrapassando cifras de mais 80 milhões de dólares por ano. No início dos anos 2000, após o lançamento de um acaricida, o manejo da leprose mudou radicalmente. Este acaricida, por ser na época altamente eficiente, fez com que algumas táticas de controle complementares da leprose fossem abandonadas ou realizadas em menor escala. Contudo, nos últimos anos, em muitas áreas, o controle do ácaro da leprose não tem sido satisfatório, o que tem causado grandes preocupações aos produtores. Além disso, o manejo do ácaro da leprose tem sido afetado pelo manejo realizado para controle do psílideo Diaphorina citri vetor das bactérias que causam a doença Huanglongbing (HLB). Talvez, alguns possam se perguntar como o manejo do HLB afeta o manejo da leprose? De diversas formas, por exemplo, o HLB elevou substancialmente os custos de produção, o que obriga muitas vezes o produtor a realizar o manejo da leprose de forma mais precária para equilibrar as contas. Tornou-se comum a mistura de acaricidas com inseticidas, todavia foi comprovado que há incompatibilidade biológica entre alguns acaricidas e inseticidas, o que pode afetar negativamente o controle do ácaro. É claro que outros fatores também tem afetado o manejo da leprose, entre estes, cita-se o maior adensamento dos pomares, falhas no monitoramento, reduções no volume de calda e certamente o número reduzido de acaricidas disponíveis. O adensamento dos pomares dificulta a penetração da calda de aplicação no interior da copa das árvores, local muitas vezes preferido para o ácaro. Muitas vezes, o adensamento entre linhas de plantio é bastante reduzido, o que não permite uma distância mínima entre a planta e o turbopulverizador para formação adequada do leque de pulverização. É recomendável que as pontas de pulverização estejam pelo menos a 40 cm distância da copa das árvores. O monitoramento do ácaro nos pomares é fundamental para a tomada de decisão de maneira assertiva. Muitos tem diminuído a quantidade de plantas amostradas e/ou a frequência de inspeção por talhão ou até mesmo abandonando a rotina de inspeções. É de extrema importância realizar as aplicações de acaricidas com níveis populacionais baixos (inferior a 5%). Aplicações realizadas com nível populacional elevado não proporciona os resultados esperados, podendo aumentar exponencialmente o número de plantas com sintomas de leprose na área. Recomenda-se amostrar no mínimo 2% das plantas de um talhão e dois frutos internos e 2 ramos externos (20 cm) por planta. Mesmo assim, resultados de pesquisa comprovaram que o erro amostral pode ser de até 50% neste sistema. Imaginem o tamanho do erro para quantidade de amostras inferiores! Além de realizar as aplicações com níveis populacionais baixos é importante que o tempo entre a amostragem e a aplicação seja curto. Caso a aplicação seja realizada muito tempo depois da amostragem o nível populacional pode estar bastante elevado. Aqui, temos, claramente uma questão que envolve a logística dos equipamentos de aplicação, dos operadores de máquinas e das condições climáticas adequadas para a aplicação. Portanto, a capacidade de gestão também é fundamental para sucesso no controle do ácaro da leprose. Reduções no volume de calda, quando não acompanhados dos ajustes necessários da tecnologia de aplicação, podem comprometer significativamente a eficiência das aplicações. É importantíssimo dimensionar, calibrar e regular os equipamentos de aplicação de maneira adequada para garantir a qualidade da aplicação. De maneira geral, o volume de calda recomendado para controle do ácaro da leprose, varia de 100 a 150 mL/m3 de copa. Entretanto, em determinadas situações, volumes superiores são necessários, geralmente, quando o nível populacional do ácaro está muito elevado, quando há muitas plantas com sintomas de leprose na área ou ainda quando o acaricida a ser utilizado proporciona curto período de controle. É fato também, que hoje, há pouquíssimas opções de moléculas acaricidas eficientes e com o uso autorizado para produção visando ao mercado externo. Isso, certamente, é uma das maiores dificuldades atuais do citricultor no manejo da leprose. Infelizmente, não há indícios de mudança deste cenário a curto e a médio prazo, sendo imprescindível a manutenção e o uso racional das moléculas disponíveis. Por exemplo, a rotação de produtos com mecanismo de ação diferentes é uma das medidas essenciais para preservação das moléculas. Utilizar a dose recomendada pelos fabricantes dos acaricidas também é muito importante para evitar o surgimento de populações resistentes. A leprose tem se disseminado por todas as regiões citrícolas do Estado de São Paulo, Triângulo Mineiro e Paraná. Portanto, medidas adicionais de controle da doença devem ser adotadas, porém sempre pautadas no aspecto econômico, na viabilidade técnica e com o menor impacto ambiental possível. Para o manejo adequado da leprose, podem ser adotadas táticas baseadas principalmente na eliminação de fontes de inóculo do vírus e na redução populacional do vetor. Para reduzir fontes de inóculo do vírus, recomendam-se o plantio de mudas sadias, eliminar plantas daninhas, cercas vivas e quebra-ventos hospedeiras do vírus, colher os frutos assim que possível e realizar podas de partes das plantas afetadas pela doença. No caso do vetor, as medidas recomendadas são: plantar mudas isentas do ácaro, desinfestar veículos e caixas de coleta, eliminar plantas daninhas hospedeiras do ácaro, empregar práticas que favoreçam a população de inimigos naturais, controlar a verrugose e larva minadora que podem proporcionar abrigo para os ácaros, reduzir a produção de poeira na área que serve como refúgio para os ácaros, utilizar cobertura verde com espécies de plantas não favoráveis ao ácaro, optar por quebra-ventos e cercas vivas desfavoráveis ao ácaro, adotar o uso de acaricidas seletivos e com mecanismos de ação distintos. Além dos cuidados mencionados, a aplicação de acaricida logo após a colheita é bastante eficiente. Em algumas áreas, com aplicação de acaricida logo após a colheita, foram verificados períodos de controle acima de 250 dias. Ainda, a aplicação em áreas recém-colhidas e podadas mecanicamente, os resultados foram ainda mais melhores com relação ao período de controle. Estes resultados são explicados pela preferência do ácaro pelos frutos. Com a colheita a maior parte da população é retirada da área juntamente com os frutos. Portanto, a aplicação após a colheita é realizada com nível população mais baixo que antes da colheita, aumentando a eficiência da aplicação. As podas mecanizadas lateral e de topo por sua vez facilitam a penetração da calda no interior das plantas e também uniformizam o pomar, proporcionado melhor cobertura das plantas. Enfim, este texto apresenta detalhes sobre a leprose dos citros e fornece informações que podem ser úteis aos citricultores com relação ao manejo dessa doença. Literatura consultada ANDRADE, D. J.; LOREÇON, J. R.; SIQUEIRA, D. S.; NOVELLI, V. M.; BASSANEZI, R. B. Space–time variability of citrus leprosis as strategic planning for crop management. Pest Management Science, v.74, p.1.798-1.803, 2018. BASSANEZI, R. B. Fatores que dificultam o controle do ácaro da leprose. 2018a. Disponível em: . Acesso em 16 de março de 2020. DELLA VECHIA, J. F.; FERREIRA, M. C.; ANDRADE, D. J. Interaction of spirodiclofen with insecticides for the control of Brevipalpus yothersi in citrus. Pest Management Science, v.74, p.2.438-2.443, 2018. Autor: Daniel Junior de Andrade Professor da FCAV UNESP/Jaboticabal. André Luis dos Santos Consultor especialista de cana-de-açúcar da Coopercitrus.

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