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abril 16, 2021
Agricultura Agroindustria Gestão Rural

Força feminina no cafezal

Com sensibilidade, conhecimento e boa gestão, as mulheres fazem a diferença no mercado nacional de cafés especiais, do plantio ao preparo

Lugar de mulher é onde ela quiser”. A frase tornou-se bandeira do movimento feminista na busca pela ocupação de espaços na sociedade. Essa máxima chegou ao setor de cafés especiais, que produziu no ano passado 9,1 milhões de sacas de 60 quilos (15% do total cultivado no País). Boa parte dessa produção está nas mãos de mulheres. Elas conquistaram espaços em todas as etapas da cadeia, da plantação ao preparo da segunda bebida mais consumida no Brasil – a primeira é a água –, com média de 3 a 4 xícaras por dia para cada habitante. “Hoje, as pessoas já entendem o princípio do valor agregado do café”, diz Carmen de Brito, 63 anos, cafeicultora há 10. “Cada vez mais, o consumidor está interessado naquilo que oferecemos numa xícara, além do sabor.”

A família de Carmen tem uma tradição de mais de 100 anos no cultivo do grão. E o lugar da plantação não poderia ser mais apropriado. As fazendas Caxambu e Aracaçu ficam em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, Estado reconhecido pela excelência na produção de cafés. Carmen representa a dimensão das mulheres produtoras, um universo que vem ganhando destaque na cafeicultura, com cuidados no manejo da produção, habilidade para gerir os negócios e trabalho intenso com marketing para agregar valor. Além de produtora, Carmen é a presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês para Brazil Specialty Coffee Association), entidade criada em 1991 e que tem procurado mostrar ao mundo a qualidade e o potencial da cafeicultura brasileira.

Os cafés especiais são aqueles classificados com pelo menos 80 pontos – de uma escala até 100 –, em quesitos como fragrância, uniformidade, sabor, acidez e doçura. Além de tudo isso, os grãos analisados não podem apresentar nenhum defeito. É necessário, também, cuidados no manejo, como a secagem, o colhimento na maturação adequada, a não utilização de agroquímicos e a produção do tipo arábica. Nas fazendas da família de Carmen, os cafés especiais representaram 80% da produção do ano passado. Das 10 mil sacas produzidas em 210 hectares, 8 mil ganharam o selo de especial. Nem sempre foi assim. Em 2010, os cafés especiais nas terras da cafeicultora somavam apenas 2% da produção – cerca de 100 das 5 mil sacas colhidas à época. O processo de transição foi árduo e exigiu muita disciplina. “O maior trabalho foi mudar a mentalidade das pessoas, a começar por nossos sócios, de que precisávamos investir nos especiais”, conta Carmen.

Ela lembra que, após convencer os sócios da necessidade da mudança, surgiu outro desafio igualmente complexo: envolver os funcionários na transição. “Era preciso treinar a equipe da fazenda para criar uma nova identidade. Todos deveriam entender o nosso objetivo e onde queríamos chegar”, diz. Ao mudar o foco de atuação, Carmen elevou não só a qualidade da produção, mas também a renda. O faturamento saiu de cerca de R$ 2 milhões para R$ 5 milhões por ano, um crescimento de 150%. Como presidente da BSCA, uma das iniciativas para dar maior visibilidade à participação das mulheres no processo foi a parceria com o Grupo Três Corações, empresa líder nacional nos segmentos de café torrado e moído, com faturamento de R$ 3,5 bilhões ao ano.

Assim, nasceu o Projeto Florada, que incentiva cafeicultoras com trabalho diferenciado. A proposta é engajar mulheres por meio de capacitação e premiar os melhores grãos das produtoras selecionadas em todo o Brasil. No mês passado, o projeto recebeu o Prêmio Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), concedido pela ONU (leia na pág. a seguir). “A produção do café começa na plantação da muda, passa pela colheita e vai até o pós-colheita. É preciso ter cuidado para não estragar o grão em alguma etapa desse processo”, afirma Pedro Lima, presidente do Grupo Três Corações. “Por terem grande sensibilidade, desde o cuidado da seleção do grão à administração das fazendas, as mulheres são parte importante de todo o processo”, destaca.

Fonte: Dinheiro Rural

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