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janeiro 22, 2022
Agricultura ARTIGOS TEC.

Café: Adubação foliar

O suprimento nutricional com macro e micronutrientes para as plantas em níveis adequados tem despertado grande interesse pelos cafeicultores, sobretudo nas últimas décadas, permitindo um balanço positivo entre a entrada através dos fertilizantes e corretivos e a saída através da colheita, acarretando ganhos consideráveis de produtividade e qualidade do produto colhido.

Neste sentido, a adubação foliar tem se tornado uma alternativa valiosa para complementação da adubação via solo, contudo, seu uso deve acontecer em situações específicas, como em casos de deficiências ou necessidade nutricional das plantas do cafeeiro.

Vale destacar que a maioria das plantas consegue absorver os nutrientes minerais aplicados via foliar de três formas, devido ao desenvolvimento de mecanismo de evolução, como as camadas de cutícula logo após a epiderme, presentes tanto na face inferior quanto superior das folhas.

Entenda melhor

A penetração desses nutrientes nas folhas do cafeeiro ocorre através da cutícula e dos estômatos, porém, na aplicação de nutrientes via foliar, alguns obstáculos à penetração são encontrados. A primeira barreira é a cutícula, constituída por uma camada cerosa, mais externa, apolar e hidrofóbica, e por uma camada de cutina, mais interna, mais hidrofílica, com a capacidade de se hidratar com a presença de água.

Além desse obstáculo, uma segunda barreira à penetração de solutos é constituída pela plasmalema e uma terceira barreira é encontrada no simplasto, onde, posteriormente, os solutos se encontrarão à disposição da planta. Neste sentido, existem quatro condições básicas nas quais a adubação foliar deve ser realizada na cultura do cafeeiro:

 1 – Corretiva: visa corrigir deficiências nutricionais que possam surgir no decorrer do ciclo do cafeeiro, em virtude da resposta rápida à aplicação do adubo via foliar;

2 – Preventiva: normalmente realizada quando um determinado nutriente não está em níveis considerados ideais e sua aplicação via solo não foi eficiente;

3 – Complementar: nessa ocasião, o adubo foliar atua como complemento à adubação via solo, ou seja, parte do(s) nutriente(s) é aplicada via solo e o restante via adubação foliar.

4 – Suplementar: nesta situação, a adubação foliar é encarada como um investimento a mais, como por exemplo, em situações em que se objetiva aumentar a produtividade e/ou a qualidade do café.

Detalhes importantes

Para aumentar os índices produtivos do cafeeiro, deve-se levar em consideração alguns aspectos, como o estado vegetativo das plantas, o potencial de produção e/ou a expectativa de colheita, além das características do local de cultivo e os adubos a serem utilizados.

A recomendação usual leva em consideração a extração dos nutrientes (em função da expectativa de carga pendente) e as características do solo (fertilidade) constantes na análise, previamente realizadas.

Para se obter os melhores resultados, como aumento dos índices produtivos, os nutrientes devem estar disponíveis para o cafeeiro na época de maior demanda, o que ocorre durante o período reprodutivo. Lembrando que cada nutriente tem um comportamento específico no solo e na planta.

Os fertilizantes foliares devem ser aplicados quando a planta não está absorvendo água em sua máxima potência. É importante que o produtor realize as aplicações nos momentos em que as plantas não apresentem aspectos como murcha, do contrário, a eficácia da técnica pode ser reduzida consideravelmente.

Os momentos mais críticos para a aplicação ocorrem quando as plantas estão em períodos de grande crescimento ou quando a planta está saindo do seu estado vegetativo e passando para um estado reprodutivo, logo, as aplicações devem ser priorizadas nessas situações. Vale destacar que a maioria das aplicações foliares devem conter nitrogênio para agir como um eletrólito carregando os íons de micronutrientes para dentro da planta. Pequenas quantidades de fósforo também são recomendadas para a circulação interna.

Na dose certa

A dose recomendada para aplicação no cafeeiro vai depender da expectativa de produtividade e dos teores dos nutrientes encontrados no solo e nas plantas. Lembrando que a adubação foliar com macronutrientes, em substituição ou suplementação à adubação NPK no solo, é ineficiente e representa um gasto desnecessário.

Em situações de solos muito argilosos, faz-se necessário a suplementação da adubação foliar com zinco, com três a quatro pulverizações por ano, devendo ser efetuadas no período de setembro a março. Necessariamente, deve-se fazer uma aplicação em pré-florada. Lembrando que o acompanhamento dos seus teores mediante análises foliares periódicas é indicado para evitar teores elevados, prejudiciais à produção. Normalmente, a dosagem a ser utilizada é de 0,6% de sulfato de zinco.

Para adubações borácicas, a dose recomendada normalmente é 0,3% de ácido bórico, realizada três a quatro vezes por ano. A aplicação pré-florada é essencial para uma maior fixação das flores, resultando em maior frutificação efetiva.

A ação do tratamento foliar com boro não é duradoura (cerca de 60 dias) e, nos casos de deficiências graves, é necessário suprimento adicional de boro via solo, que mantém os teores adequados por mais tempo.

Já em relação ao suprimento de cobre, normalmente as pulverizações normais com fungicidas cúpricos, usados contra a ferrugem ou outras doenças, controlam também as carências de cobre. Havendo necessidade, deve-se preconizar o uso de fungicidas cúpricos (0,5 a 1%) ou sulfato de cobre (0,3 a 0,5%).

Complementar, não substituta

É importante que o cafeicultor entenda que a adubação foliar é utilizada de forma associada à aplicação via solo, não para substituir, mas para complementar a demanda de nutrientes pelas plantas, o que pode vir a refletir em ganhos de produtividade e qualidade do café colhido.

A adubação via solo é uma prática rotineira no setor. Embora tenha uma importância muito grande em todo processo produtivo, quando o fornecimento de nutrientes às plantas é realizado via solo, pode ocorrer fixação no mesmo, além de perdas por lixiviação e volatilização destes nutrientes, tornando-os indisponíveis para a parte aérea das plantas.

Assim, quando aplicado via foliar, não haverá contato dos nutrientes com o solo, o que aumenta a eficiência da absorção e, consequentemente, da adubação. Por esse motivo, mesmo em pequenas quantidades, a adubação foliar pode levar a ganhos de produtividade no cafezal ao redor de 10%, ocorrendo ainda uma interferência positiva, mas menos constante, na qualidade da matéria-prima, que irá refletir futuramente em um melhor preço do produto colhido.

Direto ao ponto

O erro mais comum cometido pelos agricultores que optam pela prática da adubação foliar é posicioná-la em substituição a alguma prática de solo. Esta deve ser tratada como uma técnica complementar, e quando ambas são feitas de forma correta o retorno em produtividade é certo.

A escolha por produtos mal formulados ou de baixa tecnologia, adubos sólidos diluídos ou fertilizantes sem respaldo científico e agronômico podem difamar a prática como ineficiente. Lavouras pulverizadas com bons produtos nutricionais e bem recomendados geralmente apresentam incrementos médios de pelo menos três a quatro sacas de soja por hectare.

Para que a adubação foliar seja realmente eficiente, com absorção dos nutrientes pelas plantas, alguns fatores precisam ser atendidos, dentre os quais pode-se citar o pH e alcalinidade da solução a ser aplicada. É essencial ter cuidados com a aplicação do adubo foliar nas horas mais quentes do dia, pois o calor pode causar a evaporação da solução e a planta não terá tempo suficiente de absorver os nutrientes, além do fato de que plantas com folhas murchas apresentam baixa absorção foliar de nutrientes.

Em aplicações consorciadas com fungicidas, deve-se atentar a aspectos como compatibilidade das substâncias misturadas no tanque de pulverização. O excesso de nutrientes via adubação foliar, sobretudo de fontes nitrogenadas, pode contribuir com o surgimento de doenças nas plantas.

Vale a pena?

A adubação foliar aparenta ser uma técnica muito mais cara do que a fertilização tradicional, sendo considerada mais um gasto do que um investimento em produtividade. Entretanto, basta colocar todos os cálculos em planilhas (em longo prazo), que será possível identificar o quanto o custo-benefício desta técnica é vantajoso para qualquer produtor que tenha como objetivo a elevação da sua produção, sem a necessidade de investimentos extras, além de ganhos sobre a qualidade do café, que refletirá, consequentemente, em preços mais atrativos no momento da comercialização.

Além disso, o baixo custo da aplicação também pode ser conquistado pelo uso de fertilizantes de boa qualidade, visto que estes podem ser aplicados em mistura com a maioria dos defensivos, otimizando a aplicação no campo. É importante destacar também que a absorção dos nutrientes por meio da adubação foliar costuma ser mais eficaz se comparada à fertilização pelo solo, reduzindo as perdas.

Bianca Prisco Soares – Graduanda em Agronomia pela Faculdade de Ensino Superior e Formação Integral (FAEF, Garça – SP) – biancapriscoagro@gmail.com

Marcelo de Souza Silva – Engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia/Horticultura e professor de Agronomia – FAEF – Garça – SP – mrcsouza18@gmail.com

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